Economia Compartilhada Economia Compartilhada

Como o airbnb e o lyft finalmente fizeram com que os americanos confiassem uns nos outros

Em cerca de 40 minutos, Cindy Manit vai permitir que um completo estranho entre em seu carro. Um aplicativo em seu iPhone montado no pára-brisa vai chamá-la para uma esquina no bairro de SoMa, onde uma mulher ruiva com uma capa de chuva laranja e botas cor de café vai sentar-se no banco da frente de sua imaculada Mazda3 2006 e pedir uma carona para o aeroporto. Manit pegou centenas de pessoas aleatórias como essa. Certa vez ela ganhou por um percurso até Sausalito, no outro lado da ponte Golden Gate. Outra vez,  ela dirigiu um palhaço para uma festa pós apresentação no Cirque du Soleil.

"As pessoas podem pensar que eu sou um pouco confiante ou ingênua demais", Manit diz, enqunto dirige em direção a Potrero Hill, "mas eu não penso assim."

Manit, uma instrutora de ioga freelance e personal trainer, assinou contrato em agosto de 2012 como uma motorista para a Lyft, a empresa de compartilhamento de caronas então nascente - que permite a qualquer pessoa transformar seu carro em um táxi particular . Hoje,  a empresa possui milhares de motoristas, já levantou US $ 333 milhões em capital de risco, e é considerada uma das principais participantes da chamada economia do compartilhamento, em que as empresas criam mercados para os indivíduos onde estes podem alugar seus bens ou força de trabalho. Ao longo dos últimos anos, a economia compartilhada amadureceu, deixando de ser  um movimento marginal para se tornar uma força econômica legítima, com empresas como a Airbnb e o Uber, atualmente sendo assunto constante de rumores de IPO. (Uma destas startups pode muito bem ter apresentado um S-1 no momento em que você lê este artigo).  Ninguém menos que o colunista Thomas Friedman, do New york Times, declarou ser esta a idade da economia compartilhada, que é "a produção tanto de novos empresários como de um novo conceito de propriedade ".

A economia compartilhada chegou tão rapida e poderosamente que os reguladores e economistas ainda estão lutando para compreender seu impacto. Poém, uma das consequências já está clara: Muitas dessas empresas têm nos feito engajar-nos  em comportamentos que teriam parecido impensáveis e temerários há apenas cinco anos. Estamos entrando em carros de estranhos (Lyft, Sidecar, Uber), acolhendo-os em nossos quartos desabitados (Airbnb), deixando nossos cães em suas casas (DogVacay, Rover), e comendo em suas salas de jantar (Feastly). Estamos deixando que eles aluguem nossos carros (RelayRides, Getaround), nossos barcos (Boatbound), nossas casas (HomeAway), e as nossas ferramentas elétricas (Zilok). Estamos confiando a completos estranhos os nossos bens mais valiosos, nossas experiências  pessoais e nossas próprias vidas. No processo, estamos entrando em uma nova era de intimidade proporcionada pela Internet.

Este não é apenas um avanço econômico. É uma questão cultural, ativada por uma sofisticada série de mecanismos, algoritmos e sistemas de recompensas e punições finamente calibrados. É um passo radical para o mercado de pessoa a pessoa lançado pelo eBay: um conjunto de ferramentas digitais que nos permitem e incentivam a confiar em nossos companheiros seres humanos

A EVOLUÇÃO DA CONFIANÇA


Provavelmente há 50.000 anos, a primeira pessoa foi enganada. Desde então, desenvolvemos normas, estruturas e salvaguardas para proteger-nos em negociações, mesmo que sejam com estranhos. –

50.000 A.C.

(Entre amigos) Ocorrem transações de compra e venda apenas entre amigos e conhecidos. A negociação é baseada na reciprocidade e reputação; desonestos são evitados.

8000 A.C.

(Entre Vizinhos) Transações vizinho-a-vizinho acontecem. Pequenas aldeias se formam; ¬ habitantes de uma aldeia começam a negociar com aldeias próximas. É mais fácil confiar em alguém quando você sabe onde eles vivem.

1.200 A.C.

A moeda portátil de desenvolve – em princípio na forma de conchas, e em seguida, como moedas metálicas  e acaba por se tornar um meio compartilhado de troca, substituindo o escambo.

650 D.C.

Papel Moeda sem valor intrínseco se populariza pela primeira vez. As pessoas passam a confiar que pedaços de papel podem servir para serem trocados por  bens reais.

1.000 D.C.

(Entre desconhecidos) Compradores e vendedores começar a negociar com estranhos por meio de intermediários confiáveis que trazem seus produtos ao mercado.

1800

(Entre pessoas e empresas)  À medida em que corporações maiores passam a substituir lojas e mercados locais, a confiança passa a vir de regulamentos, seguradoras, bancos e escritórios de advocacia.

1950

(Entre pessoas e o mundo) Pessoas comuns começam a adquirir bens de corporações multinacionais. Organismos de fiscalização, juntamente com  regulamentações globais e bancos, passam a garantir essas interações.

1990

(Tudo em rede)  Produtos são comprados através de sites construídos por empresas que criam infra-estruturas de mercados centralizados e mecanismos para ssegurar a confiança.

Presente

(Entre pessoas) Novos mecanismos surgem  para garantir transações entre indivíduos,  transações estas que são mediadas por meio de mercados digitais.

Este é um trecho da famosa matéria de 2014 da revista Wired, sobre a economia compartilhada (http://www.wired.com/2014/04/trust-in-the-share-economy/) . Interessante perceber como esses conceitos se espalharam pelo mundo desde então e como chegaram a nosso País. Aqui valem muitos questionamentos, tanto sobre o grau de confiança interpessoal em nossa sociedade, quanto sobre os mecanismos de proteção e funcionalidade de nossas instituições. Será que aqui teremos os mesmos níveis de confiança? Será que os mesmos princípios também aqui se aplicam? 
A lógica da economia compartilhada é bastante óbvia. Vivemos em um mundo em que há necessidades e carências convivendo lado a lado a abundâncias diversas de recursos. Essa abundância é permeada por desperdícios diversos, sejam de bens, quanto de tempo e de possibilidades de gerar recursos com esses mesmos bens. A media, por exemplo, de tempo de uso de um automóvel é de cerca de 3% de sua vida útil. O que se faz nos outros 97%? Nada. Ele fica parado. Seja em garagens, no meio da rua ou em estacionamento. Se o bem pode ser usado para gerar valor, por que não fazê-lo, beneficiando a quem aluga e a quem permite que seu bem seja alugado? Um espaço em uma casa, ocioso. Pode gerar dinheiro com aluguel, ao mesmo pode satisfazer uma turista ou viajante a negócios que precisa e se dispõe a pagar por aquele espaço. Uma ferramenta, como uma furadeira. Provavelmente, o seu tempo de uso é infinitamente menor que os 3% de um automóvel. Que sentido faz a posse? Não faria mais sentido o compartilhamento, mesmo que remunerado?
Essa lógica esbarra na falta de confiança que temos com os nossos semelhantes. É justamente isso que os aplicativos se propõe também a resolver. 
A economia compartilhada já é uma realidade. Que tem gerado oportunidades em múltiplos setores em diversos lugares. 
O que você pode criar nesta realidade? Será que estamos preparados para uma diminuição do consumo como a que essa economia pode gerar? 

Para saber mais: 

http://www.wired.com/2014/04/trust-in-the-share-economy/

http://consumocolaborativo.cc/entendendo-o-conceito-o-que-e-economia-compartilhada/

http://startupi.com.br/2015/10/o-que-e-e-qual-o-impacto-da-nova-economia-compartilhada-no-varejo/

http://revistagalileu.globo.com/Revista/noticia/2015/02/pode-confiar.html

http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/proa/noticia/2015/08/como-a-economia-compartilhada-mudara-a-forma-como-consumimos-e-trabalhamos-4814804.html